quinta-feira, 23 de maio de 2013

Estais no céu?



Não consegue mais olhar para as nuvens
Os olhos agora estão fixos no chão.
Tão distante, ouve-se um som amargo:
"Não olhe, não olhe..."

Cansou de esperar dos céus um socorro
Deu ouvidos à voz desesperada dos aflitos
Tão perto, o vento parece escrever:
"Não ouça, não ouça..."

Sem firmeza, parece andar sobre as nuvens
Vacila, mas executa seus passos no ar
Atinge o chão com espanto profundo
E tinge de rubro o chão tão cinzento.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Pai Nosso


Junta as mãos, deitada no chão
Dirige o seu olhar ao branco forro
Explora suas dores com doce afinco
Pois quer transformar o futuro em horas.

Recita, sem pressa, a velha oração
Não sente que não existe conforto
O tempo, no entanto, não atende os caprichos
De alguém que procura livrar-se do agora.

Ouve-se o som de um longo murmúrio
Repete o rito, mas perde o ritmo
O som diluído se traduz em desgosto.

Os lábios se fecham em um breve sussurro
- Percebe agora a dor de ter crido?
E mergulha sua prece no fim silencioso.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Realidade



Parou diante daquele sorriso. Atitude tola, mas não conseguiu evitar o ridículo. Achou irônico que um simples sorriso desarmasse seu impulso de voltar ao desconforto do quarto. Percebeu que não havia mais sorriso, pois a moça já havia baixado o olhar e voltado à leitura que fazia. No entanto, a sensação ficara. Sentiu-se extremamente tolo. E limitado.

E pensou.

E teve raiva do seu excesso de análise.

- E se eu apenas fosse de uma vez?

Percebeu que a sensação era de urgência. Aquele sorriso simbolizava tudo o que perdera e estava com medo de conseguir a liberdade de volta. Fitou a moça, que parecia meditar no que lia. Ela parecia feliz. Parecia viva! Sabia que andar lá fora era um tiro no escuro, mas o que custava arriscar? 

- Estou no escuro de qualquer forma...

Um pé pra fora do quarto. Ela sorriu novamente.
E não conseguiu evitar sorrir de volta.

Sabia que o resto era apenas história.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Incerteza




Parou diante daquela luz. Sabia que deveria arriscar. Uma luz forte, convidativa. Conseguiu vislumbrar vultos dentro daquela luz. Vultos do presente alheio, sombras de um futuro agradável. Vislumbrou mais futuro que presente, mas estava indeciso. Como abandonar aquele lugar? Até então, aquilo não tinha sido seu chão? Se abandonasse, pareceria ingratidão e isso era intolerável...

- Não era?

Pensou na própria estupidez, pois não pesara o pretérito ao abrir aquela porta. E agora que o fazia, percebeu o quão ganancioso era. Estava disposto a abandonar a segurança do seu mundo pelo risco de uma talvez alegria. "Bobagem... A alegria nunca se reflete num talvez. Ou é ou não é!", pensou. No entanto, sentia algo inexplicavelmente bom pra fora daquele lugar.

Pensou em seus próprios limites. Tudo agora se limitava à ação. Ir ou não ir. "Existe ação impensada?", murmurou. Não ouviu resposta, apenas o silêncio habitual. Perguntou-se se deveria focar mais naquela luz que emergia da porta. Apertou os olhos. Distinguiu a figura de uma moça morena do outro lado da rua. Ela sorriu, amigável.

Sabia que deveria arriscar.
Sim, sabia.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Risco




Parou diante da tela branca. Não sabia o que arriscar. Não ainda. Aquela sensação imperceptível e familiar estava presente de novo. Sabia o que viria em seguida: o sublime triunfo, a falta de reconhecimento, o profundo vazio. Insistia naquele hábito, que alguns chamavam hobby. "Arrogantes...". Conhecia os limites de sua própria arrogância, mas odiava vê-los nos outros. Pareciam tão... 

Ilimitados.

Resolveu que ficaria ali sentado até saber o que arriscar. Pensou em diversas estruturas, em diversos conceitos, mas não achou algum que o alegrasse. A satisfação dos outros tempos era imediata, mas agora era fruto de árduo esforço. Trabalhava tal qual um operário. A diferença é que construía um prédio em ruínas, consumido pelo tempo. A poeira se acumulava em seu local de trabalho. Os tijolos eram todos velhos e já sabia como utilizá-los. O tempo diluía o ritmo da construção.

Levantou-se e abriu a janela. O toldo do quintal impedia-o de ver se havia sol. O tempo era frio, costumeiro, quase amigo. Pegou um casaco, desligou o instrumento de obra e saiu do quarto. Parou, por um tempo, diante da porta da sala. Ir lá fora soava como uma excentricidade. Colocou a mão na fechadura e girou a maçaneta. Claridade.

Não sabia o que arriscar.
Não ainda.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sentido



Há tempos em que você se acomoda. São tempos em que o pretérito domina a vida e o som dos sinos de outrora era apenas fantasia. Não existe sol, luz, calor ou som. O nada se torna aquilo que lhe completa. Surgem as tais questões sobre a vida, mas que vida? Levantar e ativar o modo de espera constitui vida? Ou agir determina o ser? 

Ser ou não ser?

A vida te chama à prática. A vida exige prazos e encerra ciclos. Demanda que cresças, que te tornes útil. Imperativa, força-te a ser alguém, mesmo que tu não saibas quem és. Não precisas de personalidade, precisas ter pressa. O tempo não anda a teu favor. Tu irás perder tempo com devaneios? Não vês que os papéis se acumulam, que as pessoas passam, que o relógio anda e tu ainda estás parado?

Ser por ser?

Não sei o que ainda faço aqui. Penso que o mundo está andando depressa demais e eu vou andando num ritmo lento. Aprecio o mistério de apreciar o tempo, enquanto as pessoas apenas correm os olhos por ele. Culpa, dor, lamento, sacrifício e fardo... Elas querem levá-los, mas sei que não devo. Penso no julgamento e não me declaro culpado. Exclamo minha inocência em curta resposta:

- Não ser!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Vermelho (pt. 2)




Escuridão.

Valter já havia perdido a noção do tempo em que estava ali naquele porão com aquelas duas malucas. Se não estivesse preso, facilmente as subjugaria. Pensou no que faria com elas. Fantasiou com as diversas torturas que praticaria com aquelas vagabundas. "Primeiro, vou pegar a mais nova e então..."

Abriu os olhos e vislumbrou a figura da irmã mais velha. Ela sorria com o alicate na mão. Olhou para o carrinho que estava próximo à irmã mais nova e contou, desesperado, trinta dentes.

- Que decepção, Valter... Esperava que você tivesse uma dentição completa!

O olhar do homem exalava ódio. As irmãs haviam apostado quantos dentes arrancariam dele e se ele desmaiaria no processo. Os gritos dele se mostraram completamente inúteis e a escuridão chegou antes que não existissem mais caninos.

- Desculpe-me a remoção completa. Da próxima vez, serei mais cuidadosa... - zombou a moça.

A irmã mais nova abriu um sorriso, mostrando dentes imperfeitos. Valter não levantou a cabeça:

- Quando vocês irão me soltar?

- Você não vai embora até estar completamente purificado.

"Purificado? O que essa doida está dizendo?", pensou o homem. De repente, um som alto ecoou na sala. Valter reconheceu o som de uma serra sendo ligada e tentou se libertar. A irmã mais velha não se abalou com as súplicas do homem, pois recebeu o pesado objeto das mãos da irmã caçula de uma maneira muito calma. Petrificado, Valter escutou as últimas palavras:

- Tudo estará acabado quando parar de chover sangue...

Gritos de dor.
Um líquido vermelho.
Escuridão.