sexta-feira, 14 de abril de 2017

Leve

Para Ellen, pelo dia dela.

Todo amor que conheço é pesado
Pois mede-se, divide-se e concentra-se
E espera concessão e sacrifício.

Todo amor que conheço é fardo
Pois escolhe e junta e levanta e se deixa levar
E requer força e cansaço.

Mas te conheci e percebo
Que tudo que vi era simulacro
De algo que não pode ser fardo
Porque amor não deve ser carregado.

Peço perdão, mas ainda entendo que amor de verdade é pesado
Igual ao teu: em peso de ouro, dividido por todos os lados
Porque não cabes em ti, precisas te dividir e ser para os outros
O que és para mim: amor imensurável, espalhado e nada pesado.

Pois teu amor é leve, sentido e apreciado
Embora eu seja ingrato, agora declaro
Que o amor que sinto por ti é igual o teu por mim:
- Sem fardo, sem tamanho, sem fim.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Aula de Matemática

Os professores me olhavam com aquele olhar que sempre têm quando encontram algum que se salve no meio dos imprestáveis e eu sentia o peso desse orgulho sobre os meus ombros. Para alguém tímido como eu, era um fardo e tanto. Talvez seja por isso que até hoje eu ande curvado, mas admito que sobraram poucos resquícios daquela genialidade que faziam os meus professores exclamarem surpresos um "muito bem!". Até quando havia algum silêncio após eu fazer alguma observação, não era aquele reservado aos alunos mais esforçados, aquela mudez incomodada cortada por alguma vogal alongada, normalmente um "eeeeé" constrangido de corrigir o ato de sacrifício oferecido. Não, esse não era o silêncio que me era dirigido, era um silêncio profundo de reconhecimento porque em mim não havia esforço. Havia facilidade.

Lembro-me que era o início da quinta série, pois haviam seus ritos de passagem absolutos: novos professores (o plural era uma expectativa desde o fim do ano anterior), novas matérias e talvez novos colegas. Não que eu ligasse para eles, pois sabia que a minha indiferença lhes causava rancor. Ah, esse era um tempo em que eu podia me dar o luxo de ser indiferente, sentimento esse que me é tão caro de manter hoje, pois expresso tudo que sinto, embora nem saiba sentir direito. Mas sei que sinto e sinto muito. Ao contrário dos colegas de sala que se divertiam e se entendiam, eu era um recluso à volta com os meus livros. As tentativas de me incluir nos grupos falhavam miseravelmente, então eram eles e eu.

Lá estava eu sentado na primeira fila (a justificativa sempre foi a miopia agressiva, mas eu sabia que o orgulho era o motivo verdadeiro), esperando a temida aula de matemática. Sempre tratei os números com reverência, mas confesso que nunca vi muito sentido em decorar tabuadas ou entender o que estava contido e quem continha o quê naqueles conjuntos. Pois bem, o tal professor entrou, se apresentou de forma amigável e começou a explicar o que seria tratado naquele ano. Dentro daquela conversa burocrática de educador que já deu umas mil aulas, ele lançou uma pergunta:

- Vocês conhecem os números naturais, certo?

"Que tédio", pensei. Algumas pessoas esboçaram um sim pouco convincente.

- E os inteiros?

O silêncio pesou. Não tive tempo de ruminar uma resposta quando veio aquela frase que seria a minha maldição durante todo aquele ano:

- Não dê nenhuma dica, Severino.

Olhei para trás em pânico. Quem diabo era Severino? Alguns rostos eu conhecia do ano anterior e, embora eu não conhecesse todos, no instante que me virei eu soube quem ele era e, mais importante, o que ele era. Usava a farda azul ordinária como um uniforme de guerra e havia algo nele que o diferenciava de nós - Deus, quando eu virei nós? -, e não era a roupa em si, mas como ela não o usava. Instintivamente, tentei me cobrir da nudez que ele me expunha. O seu olhar acusava que o rei estava nu. E o seu sorriso franco exibia aquela palavra desagradável que ele vestia com uma honra quase solene:

Repetente.

O pânico se transformou em desespero. Esquadrinhei minha mente em busca de uma resposta para o enigma matemático, mas a minha ignorância estava tão evidente que as palavras pareciam sair da minha boca como mingau ralo. Balbuciei respostas que sabia serem estúpidas na expectativa de acertar, mas foi em vão. O professor foi polido, mas aquele silêncio que eu mais temia, o que era reservado aos esforçados, preencheu a sala e veio sentar ao meu lado, acusador e palpável.

No entanto, o silêncio não se comparava àquela certeza que eu via no olhar de Severino. Ah como invejei aquela certeza da resposta correta. Eu era tão jovem que não havia aventado a possibilidade dele saber apenas um pedaço daquilo ou sequer saber, mas eu estava tão faminto de certeza que comeria tudo e ainda lamberia os dedos. E tenho vergonha em dizer que nunca me senti tão faminto quanto naquela hora; nem antes, nem depois. Hoje só sinto o vazio de quem escreve porque não sabe sentir de forma certa. Não há fome, sede ou vontade. Apenas o vazio de um amontoado de sentimentos.

O professor finalmente revelou o segredo daqueles números negativos - e como odiei aquele professor por não me poupar da ignorância -, mas isso era irrelevante. Agora que estava patente a minha estupidez, eu me perguntava se o único caminho era o dos outros. Sempre admirei a capacidade de autoimolação, mas perceba...  Nunca fui dado às concessões. Comprometer-se era um desafio que exigia uma certa dose de entrega e eu fugia desse caminho porque entendia que o reino vinha, não que se ia ao encontro dele. Eu era apressado, pois achava que o mundo fora feito em sete dias. Mal sabia eu que havia inventado o Criador.

A certeza de Severino exibia o meu engano. Durante o resto do ano, tentei cobrir as minhas bases: passava horas diante dos livros, estudava noites à fio, continuava a impressionar os professores com o meu conhecimento. Mas o que antes era dádiva, agora soava artificial. Eu queria o saber de Severino mais que tudo. A aberração de ser um repetente me atraía como uma mariposa para a lâmpada. Era perigoso e inalcançável, mas como eu queria aquilo. A cada resposta certa que dava, Severino me matava. E, Deus, como ele era displicente. Nunca aprendi a ser casual e essa mágoa me impele a escrever para disfarçar como sou inadequado.

Às vezes, me pergunto por onde anda o meu algoz do quinto ano. Imagino que casado... Casado não, já se divorciou e hoje vive com outra mulher. Tem filhos, mas não os visita mais. Vive de consertar carros porque não aguenta não ter controle de sua própria displicência. Anseia por uma vida pacata, onde não tenha mais que trabalhar e possa beber uma cervejinha nos fins de semana. Eu, por outro lado, me exaspero na angústia de ter uma vida comum - peço perdão por continuar falando de como expresso o que muito mal sinto, mas juro que esse bloco único de agonia está perto do fim -, mas também acredito que Severino anseia pela minha vida solitária.

Ultrapassei o repetente por volta do final do segundo bimestre. O esforço não era apenas meu: ele também não se esforçava em tentar melhorar, já que não ligava se iria passar de ano ou não. Estava sempre ocupado em fazer gracinhas para seus companheiros rirem. Também fui mudando e comecei a ter amigos na sala, e o próprio Severino era um deles. Nunca riu de mim e sempre me respeitou, mas seu olhar era inequívoco. O olhar altivo de quem me ensinou a ser humilde à fina força porque, veja bem, eu não tive escolha.