terça-feira, 2 de abril de 2013

Vermelho (pt. 2)




Escuridão.

Valter já havia perdido a noção do tempo em que estava ali naquele porão com aquelas duas malucas. Se não estivesse preso, facilmente as subjugaria. Pensou no que faria com elas. Fantasiou com as diversas torturas que praticaria com aquelas vagabundas. "Primeiro, vou pegar a mais nova e então..."

Abriu os olhos e vislumbrou a figura da irmã mais velha. Ela sorria com o alicate na mão. Olhou para o carrinho que estava próximo à irmã mais nova e contou, desesperado, trinta dentes.

- Que decepção, Valter... Esperava que você tivesse uma dentição completa!

O olhar do homem exalava ódio. As irmãs haviam apostado quantos dentes arrancariam dele e se ele desmaiaria no processo. Os gritos dele se mostraram completamente inúteis e a escuridão chegou antes que não existissem mais caninos.

- Desculpe-me a remoção completa. Da próxima vez, serei mais cuidadosa... - zombou a moça.

A irmã mais nova abriu um sorriso, mostrando dentes imperfeitos. Valter não levantou a cabeça:

- Quando vocês irão me soltar?

- Você não vai embora até estar completamente purificado.

"Purificado? O que essa doida está dizendo?", pensou o homem. De repente, um som alto ecoou na sala. Valter reconheceu o som de uma serra sendo ligada e tentou se libertar. A irmã mais velha não se abalou com as súplicas do homem, pois recebeu o pesado objeto das mãos da irmã caçula de uma maneira muito calma. Petrificado, Valter escutou as últimas palavras:

- Tudo estará acabado quando parar de chover sangue...

Gritos de dor.
Um líquido vermelho.
Escuridão.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Vermelho




A menina do vestido vermelho andava pela calçada. Sem pressa, quase saltitando. Ela sentia que aquele era um dia de sorte, mas não podia expressar sua felicidade. Estava tão ocupada em seus pensamentos que não notou o par de olhos que seguiam seus passos. O homem percebeu que ela andava sozinha e estava cada vez mais perto dela. Ela parou diante do semáforo fechado.

- Está perdida?

Ela titubeou. O tom dele era caloroso. Ela sentiu medo por uma fração de segundo, mas voltou a ficar alegre. Sabia que, em breve, estaria em casa.

- Posso te levar pra casa... Segura a minha mão!

Sem hesitar, a menina segurou firme a mão do homem e indicou o caminho com a mão livre. Estava a poucas quadras de sua casa. O homem sorriu, discretamente. Olhou para os lados e certificou-se de que ninguém prestara atenção. Fitou a menina. "Deve ter uns dez anos, talvez menos", pensou. Sentiu que era o seu dia de sorte, mas não podia expressar sua felicidade. A menina indicou a rua à esquerda e ele obedeceu.

- Seus pais estão em casa?

Ela balançou a cabeça, em negativa. "Que sorte...", sorriu. Aproximaram-se da casa nº 33 e ela tirou uma chave do bolso do vestido. Era tão magra que o vestido dançava em seu corpo. Ela estendeu a chave para o homem e sorriu. Ele retribuiu o sorriso e abriu a porta. Ela entrou primeiro e ele a seguiu no escuro. Sentiu uma pontada no pescoço e, em seguida, o gosto do assoalho. 

Escuridão.

***

Acordou horas depois, assustado. Tentou se mover, mas os braços e pernas estavam presos. Estava sentado numa cadeira de dentista. Olhou ao redor, mas não viu ninguém. Estava numa espécie de porão. A iluminação era precária, mas distinguiu a silhueta de uma mulher se aproximando:

- Ah, acordou? Pensava que ia descansar mais, seu dorminhoco! - sorriu, afável, e prosseguiu: - Obrigada por trazer minha irmã pra casa...

O homem percebeu o vulto da menina ao lado da mulher. Ela o encarava, friamente. Percebeu que se encontrava numa situação desfavorável e pôs-se a gritar. A mulher apontou:

- Essas paredes são grossas. Ninguém vai ouvir seus gritos.

- O que eu estou fazendo aqui? - perguntou o homem, com desespero.

- Ora, você veio em busca de diversão, certo? - a mulher provocou - Pena que eu sou velha demais pro seu gosto, não é?

Ele ficou calado. "Burro, burro!", castigou-se mentalmente, "É óbvio que ela não estaria sozinha em casa!". 

- O que você quer? Dinheiro? - conseguiu perguntar, após um longo suspiro.

- Dinheiro não me interessa. O pouco que tem na sua carteira já é meu, de qualquer forma. Você tem uma vida muito entediante, Valter... - ele a encarou com ódio - Sim, vi seu nome na sua identidade. Sei que você é um simples dono de loja, casado...

De repente, a mulher ficou calada e fez um sinal para a menina, que sumiu de vista. A mulher prosseguiu:

- Sua carteira me disse muita coisa, Valter... Sei que tem duas filhas. Será que você faz com elas a mesma coisa que queria fazer com a minha irmã? - perguntou, sem emoção.

Ele não respondeu. O homem escutou o som de algo sendo empurrado. A menina apareceu diante dele empurrando uma espécie de carrinho. Quando Valter percebeu o que estava em cima do carrinho, um calafrio percorreu sua nuca. Distraído, não percebeu que a menina se aproximava com um pano. Tentou gritar novamente, mas a menina conseguiu amordaçá-lo sem problemas.

- Deixe-me dizer uma coisa, Valter... Eu conheço homens como você. Você gosta de meninas novinhas... E quanto mais novinhas, melhor! - havia desprezo na voz da irmã da menina - Você se engana, dizendo que será a última vez, mas sempre continua...

Ela aproximou o rosto

- Sabe o que você é, Valter? Você é sujo!

Ela pegou o alicate que estava em cima do carrinho.

- Deixe-me purificá-lo.

A mulher começou a puxar as unhas dele com o alicate. Ele urrava de dor e o sangue jorrava de seus dedos. O homem notou que havia um sorriso no rosto da menina.

Então, houve apenas silêncio.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Incorreto



- Eu sou especial.

É o que mais ouço. Estou cercado por pessoas diferentes e únicas, cheias de entendimento. Sofisticadas, cheias de definições e certezas. "Sou isso, faço isso, tenho isto". Não há espaço pra dúvida, pro erro, pro inadequado. Tudo é perfeito. Tem que ser perfeito. Não existe espaço pra mim neste mundo. Creio no que é falho. Erro o tempo todo, pois não vivo pra ser perfeito. Então, se não existe espaço para o erro, quero inovar em ser errado. Se não existe espaço para a insanidade, deixe-me ser perfeitamente desequilibrado. Deixe-me ter medo e dúvida. Deixe que o tempo me diga quem sou. Por ora, não tenho ideia. Mas sei bem o que quero nesse mundo cheio de pessoas perfeitas:

- Ser absurdamente errado.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Canção para as estações




Tão calma, tão serena
Flores que caem.
Tão forte, pretenso
Para o sol, eles saem.

Tão seco, tão perene
Folhas que caem.
Tão vazio, tão intenso
Sufoca os que saem.

Memórias tão vívidas
Não são tão mais nítidas.
E os olhos antes claros
Mostram-se opacos.

Persigo o sol do meio-dia
E aquela luz tardia.
Esqueço o frio, por ora
A esperança renova.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pressa




Lá fora, o tempo corre e o barulho é alto. Dedos ágeis correm a tela. Ansiosos, gritam e esperneiam. Andam de um lado para o outro. Exasperados, esperam que o tempo não espere. Enganam-se. Andam com as feridas completamente expostas, mas dizem estar bem. Tem tudo, mas não se satisfazem. Insatisfeitos, reclamam e compartilham sua dor. Sofrem e ampliam seus sofrimentos. Sobrevivem.

Aqui dentro, o tempo corre e o silêncio reina. Observo toda a dor do mundo e luto contra a ansiedade. Prefiro estar sentado. Não por arrogância! Eu já tenho os pés cansados... Eu espero o tempo em que o tempo acabará. Não ando mais enganado e tento me cuidar. Procuro não reclamar. E eu, que nada tenho, procuro entender a dor dos que tudo têm. E existem outros como eu: que compreendem as dores e sofrimentos da vida. Sem reclamar. Compartilham. Doam-se.Vivem.

Sem pressa.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Inércia





Pensava. Não agora, não depois, não adiante... Pensava, refletia, escolhia.
Mas agia? Era muito covarde para tanto.
Parado, lento, observava o tempo. Adorava. Idealizava. Esperava.
De repente, pausa!
O silencio se rompia e algo se quebrava no ar.
Não esperou mais. Agiu. Correu, desesperado. De súbito, soltou uma palavra e o nada saiu de sua boca.
Esperou tanto que perdera o som. O compasso. O ritmo.

O tempo lhe fora ingrato.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Despertar



Porque isso é o que nos define...

Silêncio. 

Ele olhou para ela, confuso. Distanciou-se do parapeito, tentando entender aquela frase. Não fazia sentido... Não com o que sentira até agora. Não fazia o menor sentido! O mundo rodava e ele mergulhava naquele mar de indecisão. O que fazer? E o mundo não parava, exigia dele uma resposta. Do alto daquele prédio, eles esperavam uma resposta.

Aquele som inesperado...

Ele passou por ela e dirigiu-se à saída. Ele sorriu. Estava disposto a dar respostas e a entender melhor aquele mundo. Disposto a esquecer que um dia a conheceu, embora soubesse que isso não seria mais possível. Decidiu que entenderia o significado de viver. Um dia, entenderia. 

Um dia.

"E ela?", você me pergunta. Ela caminhou até o parapeito e seguiu-o com o olhar. Viu que, naquele mar de gente, ele vivia. Às vezes, errava, mas procurava as respostas certas. De vez em quando, ele olhava pra cima, mas com um olhar tão inexpressivo, que ela não tinha certeza se era por hábito ou se era saudade. Antes de descer, ela gritou para ele:

- Nunca esqueça que nós somos eu e você!