Ela ajeitou o cabelo dele e um sorriso discreto apareceu em seus lábios. Ela se alimentava desses pequenos momentos, dessas pequenas vontades. Eu observava de perto a dinâmica desse protótipo de relação. Sim, dessa espécie de proto-relação. Não peço perdão pela arrogância do neologismo, era isso o que eles eram e ele sabia. Ela ali estava, subserviente, esperando pelas migalhas de afeição que caíam da mesa dele. Sentia fome de um amor maior, mas faltava a coragem de um confronto. E assim ia morrendo de desejo, de vontade, de querer um algo inatingível, porque, convenhamos, é melhor nada ser do que nada ter. Nada sendo ia tendo, mesmo que ele não se importasse. Mesmo que o fascínio a dominasse. E ele sabia desse fascínio, abusando como podia. Porque era tolo. Porque não sabia que é melhor ser útil do que desejado. Porque a angústia dela era quase como a de um texto escrito em parágrafo único, igual a esse que escrevo, texto bruto escrito em bloco único. Era quase como se os eventos fossem acontecendo e ninguém pudesse pará-los (no final das contas, ninguém vai parar mesmo, não é?) e o mundo segue e o texto corre e corre e corre... Nesse quase-quase de amar sem ter amor, a angústia dela aumentava, o tempo passava e nada acontecia. Eu apenas observava ele não se compadecer da dor dela, que pingava de um conta-gotas sem fim. "Alguém vai pará-lo?" Os céus proclamam a lacônica resposta: "Só Deus sabe!". Minto, fui eu que falei. Mas eu não quero assumir a responsabilidade de uma frase tão desesperançosa. Devo voltar a falar dela? Pois bem: por enquanto, ela vai sofrer. Eventualmente, vai querer morrer, mas é bom morrer de vez em quando. Morte nem sempre é fim. Quase nunca, na verdade. No fim, não nos agarramos a essa esperança?
sábado, 30 de agosto de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
A luz
Ele havia se trancado
há muito tempo. O velho quarto empoeirado era sua grande personalidade e o
vazio, um excelente conhecido. Um conhecido distante, polido... Afável, mas não
amável. Cercava-se de solidão, esperançoso que o tempo lhe providenciasse
misericórdia. “Depois de um tempo, a gente se acostuma...”, era a quase oração
cotidiana. Dançava sozinho, tendo ao seu lado um imenso rosário feito de más
expectativas e sonhos ruins. Rezava para um alguém distante e se sentia
espiritual.
Cansado do imperfeito,
descartou as dores de sempre e andou dois passos em direção à porta. Tímido,
tirou os sapatos e desceu a mão sobre a maçaneta. No estalar de um tempo que
jamais voltaria, a porta se abriu e revelou um clarão que ele nunca imaginou
contemplar.
Deus?! Eu não sei.
Desatou a rir, pois
sabia.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Aos Livres
Eu era livre
Mas prenderam minhas mãos
Mandaram eu ser nada
E catar o feijão.
Eu era livre
Mas me confundiram na rua
De repente, sou bruxa!
De repente, sou bruxa!
Morte sem explicação.
Eu era livre
Mas prenderam minhas mãos
Mas prenderam minhas mãos
Mandaram eu calar a boca
E catar algodão.
Eu era livre
Mas me prenderam no poste
Disseram que eu não era humano
Sem direito ao perdão.
Deus me livre
Daqueles que dizem ser livres
Daqueles que dizem ser livres
Mas matam o seu próximo
Com as próprias mãos.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
tempo-matéria
E pedi que o tempo parasse por um instante
Mas como pode um ser tão irrelevante
Obter dos céus tal graça inalcançável?
A decepção marcada em meu rosto
Deu-me a força necessária para o desapego
Você, porém, ainda quer insistir no desassossego
De querer que o tempo não lhe cause o menor desgosto
Não vê que só ao Eterno pertence tão grande privilégio?
Compreende então a dimensão do seu sacrilégio
Aquieta e espera, sem rumo, sem fé, sem norte
E compreende os escritos da nossa sorte
Que, cruel, o tempo preza pela hora
A linearidade dos ponteiros do agora
Abraça a percepção de que ele nunca passa
E entende de uma vez que não há quem o desfaça.
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Ruína (fim)
- Olhar...?
Não entendeu. O que ela queria dizer com aquilo? O sinal vermelho, a espera... Será que ela não via como era injusto deixá-lo no escuro? As luzes do parque, o carrossel girando e girando... Não via? Por que não via? E a dor aumentava. O sorriso dela, aquele olhar tão vivo... Estava cego? O carrossel, o parque, tudo se misturava. O mundo rodava, mas estavam parados no mesmo lugar. O que era aquela sensação crescente no peito dele?
- Agonia.
Ela sabia que ele precisava daquilo. Iluminação... Esclarecimento? Não soube dizer o que era. Apenas sabia que deveria falar. Que deveria ajudá-lo a entender a dor em toda a sua plenitude. Sentiu-se miserável por fazê-lo passar por aquilo. Não suportava. Apenas caminhou em direção à saída na esperança de que ele compreendesse sozinho.
- Você acha que é a minha ruína.
"Ele conseguiu?", o rosto dela se iluminou. Mas rapidamente desfez o sorriso quando voltou o rosto para encará-lo. Onde estava o rapaz que ela conhecera? Ela havia conseguido. Ele estava quebrado. E onde estava a beleza disso? Continuou caminhando em direção à porta, pesando a dor que sentia, e só conseguiu ouvir o desespero na voz dele:
- Você sabe que podemos fazer dar certo.
- Eu sei. - foi o adeus dela.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Ruína (II)
- Se você sabe...
Não continuou, pois entendeu que devia esperar uma resposta. Como era possível que o olhar confuso dela expressasse mil verdades? Ele sabia que precisava esperar, mas a espera nunca foi o seu forte. Lembrou do dia em que a conhecera: sinal vermelho, espera, impaciência, um sorriso tímido do outro lado e pronto. Em pouco tempo, se viu puxando assunto com uma total desconhecida. Gostou do humor dela, do modo sombrio de ver as coisas...
- Lembra do dia no parque? - a voz dela estava distante.
"Como poderia esquecer?", pensou. Ela odiava parques, mas ele a havia convencido. No início, ela parecia chateada por estar ali, mas a companhia dele a ajudou a relaxar. Em pouco tempo, ela parecia uma criança. Correndo de um lado pro outro, desajeitada, rindo sem motivo.. O último brinquedo era o carrossel e ela correu para a fila. Ele pensou em como aquilo deveria parecer estúpido, até ver o olhar embevecido dela. O mundo girava e girava, mas nada importava. A felicidade dela era o que importava.
- Não entendo... Você parecia...
Ela ainda parecia distante quando interrompeu:
- Eu não posso te devolver aquele olhar.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Ruína
- Não... - e baixou a cabeça.
- Eu entendo.
Não era o que esperava. Imaginou vários cenários em seus pensamentos: reações de raiva, de medo, de desespero... Mas não aprendera a controlar aquilo que estava impresso na voz dele. Queria confirmar o que era, mas não ousou levantar a cabeça para olhar nos olhos dele.
- Você sabe...
- Chega. Não mais. - houve uma quebra na voz.
Ela se calou. Era raiva? Não sabia. Esperou que a chuva de palavras viesse, mas ele levantou a cabeça dela e beijou os seus lábios. Surpresa, ela retribuiu. Os pensamentos desapareceram e ela não pensou em mais nada a não ser naquele beijo. Por um breve momento, se sentiu segura e pensou que nada poderia machucá-la. Quando se separaram, havia uma lágrima em seu rosto.
- Esquece isso. - ele enxugou a lágrima do rosto dela e prosseguiu: - Você sabe...
- Eu sei... - ela interrompeu.
Ela sabia que iria arruiná-lo.
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