quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Retrospecto



Ao futuro.

Começar sempre é o mais difícil. Você faz suas listas, estende suas preces, fecha os olhos e torce pelo melhor. Sem esperar. Há sempre a pressa em manter-se ágil. Gostamos da ação, do movimento, das cores fortes, da celebração intensa. Nessa intensidade de viver em movimento, não sentimos que o tempo brinca conosco. Tudo é uma grande diversão. Não há tempo para admirar o tempo.

Ledo engano.

Pensamos que levamos a vida. Na maioria das vezes, ela nos carrega por aí. Como o vento leva a poeira pra longe. E o tempo, oportuno, nos lembra que há tempo para estar em movimento, mas também há tempo para esperar. E a espera nos aflige, pois é lenta, preguiçosa e nos resta pouquíssimas escolhas diante dela... Diante de nossas súplicas, se mostra inexorável... O que nos resta? Resignação?!

Há tempos que não.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Tempo perdido

Tudo.
Brinque.
Sonhe.
Estude.
Estude mais.
Não perca tempo com brincadeiras.
Estude mais um pouco.
Escolha um curso.
Não perca tempo com sonhos.
Estude um pouco mais.
Tenha um emprego.
Não perca tempo com brincadeiras.
Trabalhe mais.
Consuma.
Não perca tempo com sonhos.
Pare de trabalhar.
Descanse.
Não perca tempo com brincadeiras.
Descanse mais.
Fim de tempo.
Nada.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O fim



O abraço se desfez e eu fui embora sem olhar para trás. Não testemunhei o que aconteceu com eles. Foram felizes? Tiveram filhos? Envelheceram? Espero que sim, mas não posso afirmar. Nunca mais ouvi falar deles. Guardei-os em uma gaveta e me preocupei com as contas, com os ofícios, com os artigos... Com a vida? A verdade é que eu esqueci deles e vejo agora que a história está sem final. Talvez seja melhor deixar assim mesmo. Sem fim. Sem ponto. Sem saber.

Não dá. Há o peso de dar-lhes um final. 
E decido que é o final que nunca terei.

sábado, 9 de novembro de 2013

Antes do Fim (II)




Aquele abraço o transportou para um outro lugar. Estava em outra casa, abraçando outra pessoa, mas o sentimento era o mesmo. Ele era criança e sua mãe acariciava seu cabelo. Não lembrava o motivo - havia caído no quintal ou perdera o brinquedo que tanto gostava? -, mas o detalhe não importava. Lembrou-se apenas do amor que sentia e do carinho que havia por trás de cada ato. Pequenos detalhes que pareciam eternos...

Pareciam...

Uma ida ao hospital e a mãe não estava mais ali. Estava sozinho no mundo. O pai tornara-se a sombra do que fora um dia. O seu olhar carregava amargura e rancor. Dizia ao filho que o amava, mas seus olhos o traíam. Castigava-se, mas não conseguia evitar a raiva que sentia ao ver a esposa amada no filho. Não havia mais carinho, amor, casa ou abraço.

O filho cresceu, tornou-se homem, se casou. Construiu sua própria casa. Poderiam haver abraços infindáveis. Aos poucos, voltou para aquela casa, para aquele carinho, para aquele amor... 

- Para o abraço dela.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Antes do Fim (I)



- Bom dia.

Ela retribuiu o cumprimento. Ele a envolveu em um abraço e sentiu o perfume dela. O cheiro suave invadiu suas narinas e ele se sentiu feliz. Sabia que era por pouco tempo, sua tristeza habitual logo voltaria e ele seria um intruso naquela casa. Não sabia quanto tempo tinha, mas sabia que isso aconteceria. 

Pronto. Já estava triste novamente.

Essa tristeza só era diminuída na presença da alegria dela. Quando a conheceu, se apaixonou pelo calor do seus sorriso, pelos pequenos gestos de carinho, pela doce melodia saída de sua voz. Sentia-se imensamente feliz quando estava com ela e decidiu que nunca ficaria longe dela. O abraço ficou mais apertado. O abraço do náufrago em sua tábua de salvação. E ficou ali, imerso nos próprios pensamentos, desejando que aquilo nunca acabasse.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A água fria corre sobre a sua cabeça. Ela sente o peso da água e, calada, aceita o castigo. O corpo reclama, mas a mente não se dobra. Gostaria de pensar em milhões de coisas, mas nada vem a mente. Por sinal, o nada é a única coisa que ocupa sua mente. Acostumou-se a ouvir que nada era, então nada se tornou. Disseram que ela nada poderia ter, então nada tinha.

Eu queria dizer a ela que tudo vai mudar. Que ela não precisa se torturar, que ela será alguém. Eu gostaria de vê-la crescer e sair dali, abandonando aquele estado apático. Eu a ajudaria a fazer novos amigos, a tomar novos ares, a encontrar prazer no mundo. Eu queria dizer a ela que tudo isso vai passar.

- Mas não vai.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Recado



Eu não quero que me escrevas
- Cartas mostram intensidade...
Não quero ver tua caligrafia
Nem esperar a visita do carteiro.

Eu não quero que me escrevas 
- Cartas revelam sentimentos...
Não quero ver teus devaneios
Nem decifrar a tua complexa escrita.

Eu não quero que me escrevas
- Cartas são tão pessoais...
Guarda-as no fundo da alma
E amarra-as com um laço de desapego.

E mesmo dizendo que não quero tuas cartas
Insistes ainda em me escrever?
Dou-me por vencido e aceito teu sorriso
Como o mais belo e sincero recado.