quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O fim



O abraço se desfez e eu fui embora sem olhar para trás. Não testemunhei o que aconteceu com eles. Foram felizes? Tiveram filhos? Envelheceram? Espero que sim, mas não posso afirmar. Nunca mais ouvi falar deles. Guardei-os em uma gaveta e me preocupei com as contas, com os ofícios, com os artigos... Com a vida? A verdade é que eu esqueci deles e vejo agora que a história está sem final. Talvez seja melhor deixar assim mesmo. Sem fim. Sem ponto. Sem saber.

Não dá. Há o peso de dar-lhes um final. 
E decido que é o final que nunca terei.

sábado, 9 de novembro de 2013

Antes do Fim (II)




Aquele abraço o transportou para um outro lugar. Estava em outra casa, abraçando outra pessoa, mas o sentimento era o mesmo. Ele era criança e sua mãe acariciava seu cabelo. Não lembrava o motivo - havia caído no quintal ou perdera o brinquedo que tanto gostava? -, mas o detalhe não importava. Lembrou-se apenas do amor que sentia e do carinho que havia por trás de cada ato. Pequenos detalhes que pareciam eternos...

Pareciam...

Uma ida ao hospital e a mãe não estava mais ali. Estava sozinho no mundo. O pai tornara-se a sombra do que fora um dia. O seu olhar carregava amargura e rancor. Dizia ao filho que o amava, mas seus olhos o traíam. Castigava-se, mas não conseguia evitar a raiva que sentia ao ver a esposa amada no filho. Não havia mais carinho, amor, casa ou abraço.

O filho cresceu, tornou-se homem, se casou. Construiu sua própria casa. Poderiam haver abraços infindáveis. Aos poucos, voltou para aquela casa, para aquele carinho, para aquele amor... 

- Para o abraço dela.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Antes do Fim (I)



- Bom dia.

Ela retribuiu o cumprimento. Ele a envolveu em um abraço e sentiu o perfume dela. O cheiro suave invadiu suas narinas e ele se sentiu feliz. Sabia que era por pouco tempo, sua tristeza habitual logo voltaria e ele seria um intruso naquela casa. Não sabia quanto tempo tinha, mas sabia que isso aconteceria. 

Pronto. Já estava triste novamente.

Essa tristeza só era diminuída na presença da alegria dela. Quando a conheceu, se apaixonou pelo calor do seus sorriso, pelos pequenos gestos de carinho, pela doce melodia saída de sua voz. Sentia-se imensamente feliz quando estava com ela e decidiu que nunca ficaria longe dela. O abraço ficou mais apertado. O abraço do náufrago em sua tábua de salvação. E ficou ali, imerso nos próprios pensamentos, desejando que aquilo nunca acabasse.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A água fria corre sobre a sua cabeça. Ela sente o peso da água e, calada, aceita o castigo. O corpo reclama, mas a mente não se dobra. Gostaria de pensar em milhões de coisas, mas nada vem a mente. Por sinal, o nada é a única coisa que ocupa sua mente. Acostumou-se a ouvir que nada era, então nada se tornou. Disseram que ela nada poderia ter, então nada tinha.

Eu queria dizer a ela que tudo vai mudar. Que ela não precisa se torturar, que ela será alguém. Eu gostaria de vê-la crescer e sair dali, abandonando aquele estado apático. Eu a ajudaria a fazer novos amigos, a tomar novos ares, a encontrar prazer no mundo. Eu queria dizer a ela que tudo isso vai passar.

- Mas não vai.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Recado



Eu não quero que me escrevas
- Cartas mostram intensidade...
Não quero ver tua caligrafia
Nem esperar a visita do carteiro.

Eu não quero que me escrevas 
- Cartas revelam sentimentos...
Não quero ver teus devaneios
Nem decifrar a tua complexa escrita.

Eu não quero que me escrevas
- Cartas são tão pessoais...
Guarda-as no fundo da alma
E amarra-as com um laço de desapego.

E mesmo dizendo que não quero tuas cartas
Insistes ainda em me escrever?
Dou-me por vencido e aceito teu sorriso
Como o mais belo e sincero recado.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Receita

Experimenta escrever o que desejar sem se importar com forma.
Experimenta encarar a tela branca por um instante mais longo.
Experimenta dizer o que pensa.
Experimenta arriscar.
Experimenta errar.
Experimentou?

Agora apaga.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reforma

Hoje recebi uma notícia boa.

Sobreviver a esta semana era a minha primeira meta. 
Fracassei.
Quebraram paredes, cerâmicas, discursos, vontades, esperanças...

Esquece.
Hoje compensou todos os meus fracassos.